

Entenda por que a volta do Arquivo X não foi épica como você achou que seria.
Quem esteve ligado ontem (25/01), pode acompanhar a volta do Arquivo X, série icônica dos anos 90, responsável por grandes audiências no passado. Fãs antigos e novos aguardaram ansiosos pelo retorno dos agentes Fox Mulder e Dana Scully que, em tempos idos, cruzavam os EUA resolvendo questões nada convencionais, envolvendo a crença e o ceticismo e, claro, Aliens.
Após dois episódios seguidos, minha humilde opinião, é que a coisa fico beeeem morna, quase “fuém”. Quando você acorda no dia seguinte e reflete um pouco, começa a entender o porquê. E eu explico pra você agora.
O principal vício da nova temporada do Arquivo X é a forma equivocada como ela lida com as informações secretas.
Criada por Chris Carter, a primeira leva de temporadas (nove ao total, entre 1996 e 2002) é um exemplo clássico de narrativa pré-web e, por isso, tem seu ritmo próprio e seus vícios também.
Há 20 anos, a mania por conspirações tinha um ritmo mais lento e, facilmente, elevava histórias como o acidente de Roswell, as Chemtrails e a hibridização de humanos à categoria de lendas urbanas.
Hoje, eles têm menos força do que o meme da semana. Sim, existem nichos que veneram as teorias com peso de Verdade revelada. Mas, o grande público simplesmente não compra mais isso. (E, entenda, mesmo que seja real). Trocou há tempos o mistério pela superficialidade do viralzinho da vez.
Neste contexto, o plot central da série acaba por jogar contra seu retorno ao status de “série cult”. Mesmo o twist proposto no episódio de abertura é uma tentativa falha de atualizar o centro dessa história. Tem um furo óbvio quando justifica a chegada dos Aliens e o que foi feito deles após os anos 50. Só faltou soltar um “Iluminatis”. O novo Arquivo X portanto é o antigo Arquivo X. É, assim, seu próprio pastiche.
Mas, você pode dizer: eles investiram em uma atualização dos conceitos e da trama.
Não, não investiram. O que a gente pode ver foram piadinhas aqui e ali para nos dizer o óbvio: que Mulder e Scully sobreviveram aos anos 00 e 10. Ele anda de Uber, acessa o YouTube e sabe quem é Edward Snowden. Ok. Mas, isso não tem qualquer relevância ou peso em sua mudança de postura ou forma de encarar o mundo e sua cruzada. Ele é essencialmente o mesmo, não andou uma casinha. Não ficou mais cético (todos ficamos com a idade, acredite), não usou as ferramentas para ir um passo mais a fundo em suas teorias. Aliás, pelo contrário, fala várias vezes: “Sabe como é, sou Old School”. É, Mulder? Deixa eu te contar o que fazem com quem não se atualiza. Me manda uma INBOX.
Enfim, o texto parece estar ali, não para nos contar como a história evoluiu em 13 anos, mas para nos lembrar que o episódio em questão não é uma reprise de 1999. Mas isso a agente já sabia desde que eles anunciaram o retorno, certo? Ou não?
Ritmo é tudo, como a Netflix já ensinou para você.
Família Soprano, Lost, Breaking Bad, House of Cards… posso passar alguns minutos aqui relembrando séries que mudaram a forma como a TV tem sido feita desde 2004. E isso se traduz em um elemento fundamental em qualquer narrativa audiovisual: o ritmo. Aquele que leva você de um Ponto A ao Ponto B tirando o seu fôlego, lembra?
E a falta de ritmo (ou o ritmo mal pensado) foi outro problema nos episódios de ontem. Fomos convidados a testemunhar a mesma estrutura de clipes entrecortados com trilha descuidada de sempre. Nada daquela pegada cinematográfica que já estamos acostumados. De 5 em 5 minutos temos um pequeno mistério, uma cena de ação gratuita e um cliffhanger meio fajuto. Sem parar. Dois episódios inteiros. Atenção roteiristas: War Room agora!
Fosse só isso, ok. Mas a questão esbarra em outra, essa ainda mais perigosa. O Netflix mudou a forma como as séries são feitas, quer você aceite isso ou não. Hoje, esperamos um certo “fluxo contínuo” de tensão. Esperamos um filme de 13 horas, fracionado em capítulos, muitas vezes disponíveis desde o primeiro dia. Esperamos trilhas como a de The Leftovers. Cenas como a abertura de Lost. Precisamos de Mistery Boxes! O pacote precisa ser completo, meu caro.
Poderíamos deixar passar tudo isso se os atores fossem ótimos.
Só que eles são péssimos. Aliás, sempre foram. Pegue qualquer episódios e você vai perceber que a profundidade de suas interpretações não passa dos tornozelos e o David Duchovny cursou a mesma escola “uou” do Keanu Reaves. Sabe aquele mesmo tipo de expressão eterna e uma voz que não modula? Tiraram 10, os dois.
Estaria de boas para eles, caso não tivéssemos criado o ritual de sentar para assistir TV e ter o Kevin Spacey, o Brian Craston ou a Viola Davis (Só para citar House of Cards, Breaking Bad e How to Get Away With Murder) toda semana dando seus shows. Só para ficar mais simples e não dizer que estou exigindo demais: o Jim Parsons já seria um bom exemplo com o seu Sheldon Cooper.
A verdade está lá fora. Mas coloca ela pra dentro que vai chover.
Só para você não ficar achando que não curto Arquivo X, vamos a lguns detalhes. Eu vi a série original da TV aberta e comprei os DVDs depois. Li livros sobre os assuntos tratados antes que eles virassem ebooks e até já trabalhei com os dubladores originais. A história é longa mas para resumir, a experiência gerou um dos vídeos mais divertidos que já roteirizei. Pura zoeira pré-Youtube. Se liga:
Mas, preciso ser justo com a minha própria “fanboyice”. Infelizmente, o que vi ontem, não foi um retorno digno. Mas, ainda assim, foi um alerta importante. A série hoje é menos sobre conspirações alienígenas e mais sobre como a narrativa televisiva, sobretudo aquela derivada das séreis, evoluiu.
E, felizmente, ela evoluiu. Fringe, The 100 e Collony (este só me indicaram, ainda não vi), estão aí para nos contar que a verdade ainda está lá fora. Mas hoje fala uma língua diferente.